Eu queria dormir pra sempre.Mas pra sempre só um pouquinho.
Pra ver se assim eu curo
essa preguiça toda de dormir. De acordar. De dormir.
De acordar meio doente.
Fora do ar, confusa, descrente.
Do dia que vai passar.
Das horas que vão correr, dos olhos que não vão ver.
Vou fazer força pra viver. Com tanta força, e sentir.
Minha incrível lacuna de preocupação regada à minha dose diária de apatia dolorida. Indesejada. De certas coisas.
Ressaca moral. Silêncio abismal.
Desanimei. Entristeci.
Mas eis que ela surge: linda, clara, hidratante.
É na minha primeira hora de luz, que o branco mais que nu, reluz, e faz a dança, e me chama.
Toda virgem, intangível, embolando o torso impenetrável.
Enrola, que me enrola e faz por vezes começar.
E ela vem. E ela vem. Deus, como ela vem.
Deliciosa, aliviada, no céu, na lente, no que vai queimar, e...
Ah, se eu pudesse dormir agora...
Dormir para sempre todo aquele pouquinho...
Mas o calor..
Mas não é hora.
E espera que se vence.
Até a noite. Até o escuro e até o coração.
E volta. E para. E limpa.
E descansa.
Para sempre. O mesmo pouquinho.
Até pra sempre se acordar.
M.
